domingo, 14 de julho de 2013


BEM VINDOS AO ESCAFANDRO



Escafandro (do grego Skáphos, “oco, escavado, em forma de barco” mais Andrós, “homem”, com a ideia de “homem-barco”). Homem-barco: bonita, a ideia. 

    Particularmente, tenho medo de escafandros. Confesso. Ou pelo menos costumava ter, quando criança.  Aquela coisa pesada, enferrujada e sem vida parecia me olhar, mesmo quando vazia. Meus medos infantis eram de: escafandros, escorpiões, submarinos e baleias. O medo de lobisomens (que guardavam bem mais particularidades com o Pantanal do que os seus contemporâneos vampiros e eram, por isso mesmo, mais prováveis) foi só uma efemeridade, passou sem deixar maiores resquícios além de um ou outro arranhão adquiridos em minhas fugas mirabolantes de vacas ou cães que a escuridão da noite e a alta suscetibilidade infantil transformaram em criaturas medonhas. Uma vez, quando bem jovem, pisei em um ninho de escorpiões com mais de cem espécimes de toda a sorte de tamanhos e cores. Foi inesquecível da pior maneira que algo pode ser inesquecível. Por esse bastante motivo o medo de escorpião foi o único que resistiu ao tempo (levando-se em conta, claro, e isso é muito importante, que muito dificilmente eu me verei: 1- frente a frente com uma cachalote; 2- dentro de um submarino e 3 - com a cabeça metida em um escafandro). 

    Mas, de onde vem esses estranhos medos, afinal? Bom, uma teoria que eu sigo e que, na verdade, pensando melhor, é mais do que uma teoria por ser eu, ao mesmo tempo, o pesquisador e o objeto estudado, é que o elemento comum entre tais quase-fobias é o Oceano. Portanto, o medo seria mesmo do Oceano. Não desse ou daquele oceano em especial, mas da IDEIA de Oceano em si. O pavor se instalava em mim quando eu me dava conta que de aquilo era tão imenso que milhares de animais gigantescos, dezenas de espécies de baleias e até alguns octopus monstruosos cabiam dentro dele e que os submarinos, imponentes em sua brutalidade de ferro, vapor e  grunhidos, eram apenas pequenos pontos luminosos na imensidão negra. E os filmes nos quais o Simbad lutava com monstros marinhos de mais de cinquenta metros não me ajudavam em nada...Mas, infelizmente (felizmente?) não se fazem mais filmes com escafandros, nem com submarinos ("nem com escadarias!", diria o Luis Fernando Veríssimo). Com baleias até fazem alguns, mas elas nunca aparecem para amedrontar, só fazem uma ponta por questões estéticas e, mesmo assim, levando-se em consideração que não deve ser nada fácil adestrar uma cachalote, uma baleia azul ou uma orca, é o computador que geralmente as cria. Admirável mundo novo.

    Homem-barco. Bonita ideia, repito. Quem diria: o temível escafandro veio, anos depois, emprestar seu nome ao meu blog! Faz sentido se lembrarmos que sempre usamos a expressão "mergulhar em um livro" para mostrar o quanto gostamos de uma obra. Já mergulhei em muitos, aliás. Alguns mergulhos merecedores de menção:

. em "Grande Sertão: Veredas" mergulhei por cinco vezes e, em todas elas, saí dele quase sem ar. O Rosa e sua prosa. A pessoa que entra em uma de suas margens nunca é a mesma que sai na outra. Estranho Rio (baldo), aquele.

. pede-se que, em Machado de Assis, os mergulhos sejam praticados de fraque e cartola, tamanha a honra de se estar ali e devido à pompa daquelas águas. Sair delas: dever amaríssimo!

. Saramago era é o próprio oceano. Ponto.

. com meu Escafandro Imaginário, eu - o Homem-Barco - velejei por novos mares nos últimos meses: Bolaño, Pamuk, Egan, Zadie Smith e outros afluentes de nomes interessantes. Águas novas para a mesma velha sede que não cessa. 

    Enfim, os mergulhos contínuos me contaminaram (deve ser água no ouvido, minha mãe dizia que isso é grave e que, às vezes, a água nunca mais sai de lá!) de tal maneira que me levaram a querer escrever. E escrevo. Às vezes por escrever, às vezes à sério. E um blog, meus caros, é uma ferramenta ótima para se treinar a escrita. Pretendo escrever um livro um dia, já tenho até alguns capítulos prontos, espia! 
Mas preciso (e pretendo) ser lido aqui antes de ser lido lá. E, se esse "lá" nunca chegar, não me entristecerei: um caminho percorrido nunca o é em vão. 

    Bem vindos ao Escafandro. Comentem, compartilhem. Mergulhem!




(Só tenham cuidado com as baleias!)